Sigismund Freud

Freud (1856-1939)
1856. Sigismund Scholmo Freud nasceu no dia 6 de maio de 1856, na Morávia, região da Europa Central na época pertencente ao Império Austríaco (hoje Tchéquia). Vive a infância em uma grande família judia, ao lado de oito irmãos. Favorito da mãe e aposta do pai para um futuro de sucesso, o pequeno Sigi tinha privilégios: suas irmãs são proibidas de estudar piano para a música não atrapalhar os estudos do gênio.
1860. A família se muda para Viena, a capital do Império Austríaco. Freud permanecerá morando na cidade quase que pela sua vida inteira. Só a deixará definitivamente em 1938, para evitar a Gestapo, um ano antes de sua morte. Curiosamente, há um período, entre 1908 e 1913, em que Freud e o próprio Hitler moraram em Viena, a poucos quilômetros um do outro.
1881. Freud se forma em Medicina. No ano seguinte, começa a trabalhar no Hospital Geral de Viena, onde é testemunha da indiferença e imponência dos médicos perante seus pacientes. À época, os doutores falavam, e os pacientes ouviam. Freud colocará esse sistema de cabeça para baixo.
1883. Começa a praticar neurologia no laboratório do psiquiatra Theodor Meynert. Acumula experiência na anatomia do cérebro e se especializa na localização exata de lesões cerebrais.
1884. Passa a pesquisar o uso clínico da cocaína - substância que acredita ser um remédio poderoso contra sua neurastenia, uma falta de vigor físico e mental. Vira usuário e entusiasta do pó branco. Numa certa carta à noiva, escrita nesse mesmo ano, diz: “Quando chegar, te beijarei até deixá-la toda vermelha. E, caso não se mostre dócil, verá quem é mais forte - a doce menininha que não come o suficiente ou o grão-senhor impetuoso com cocaína no corpo”. Mais tarde, arrependido e com a reputação manchada por esse hábito, deixará a droga.
1885. Estuda por cerca de um ano com o médico Jean-Martin Charcot, em Paris, e presencia o estudo de doenças psíquicas - especialmente a histeria - com o uso de hipnotismo. Esse contato tem um impacto tremendo sobre Freud. Chacort confirma sua impressão de que os sintomas físicos das histéricas têm origem mental, não em males do corpo. E as curas temporárias desses sintomas, durante as sessões de hipnose, dão a Freud um insight que mudará sua vida: o de que a mente pode se dividir em duas linhas de pensamento ao mesmo tempo, uma consciente e uma fora do alcance da consciência.
1886. Casa-se com Martha Bernays, com quem terá seis filhos. A caçula, Anna Freud, será também psicanalista renomada, especialista em análise das crianças.
1887. Agora com consultório próprio, Freud começa a usar a hipnose para tratar doenças nervosas. Sem muita habilidade para hipnotizar pessoas, logo descobrirá que não precisa desse artifício para tratá-las.
Nesse mesmo ano, estabelece amizade com Wilhelm Fliess. O médico berlinense vira confidente, apoiador e questionador das ideias de Freud, como se este último precisasse falar livremente a um interlocutor - como na terapia - para elaborar melhor suas teorias. Ao longo de uma troca interna de cartas e encontros esporádicos, Fliess se firma como peça imprescindível na construção do castelo teórico do amigo.
1890. Um paciente de Freud, madame Benvenist, o presenteia com um divã. Diz que, se terá sua cabeça analisada, precisa estar confortável. A peça é modesta, de cor bege, e o médico decide cobri-la com tapetes persas e almofadas de veludo. Em pouco tempo, Sigmund conclui que o móvel é essencial para sua terapia. (O móvel original está exposto até hoje no Museu Freud, em Londres.)
1891. Publica seu primeiro livro: “Sobre a Concepção das Afasias”, que trata de desordens da linguagem e neurologia.
1895. Esboça seu “Projeto para uma Psicologia Científica”, a tentativa de estabelecer a psicologia como uma ciência natural, baseada na neurologia. Mas esse trabalho é deixado de lado e só será transformado em livro após sua morte.
O maior acontecimento do ano, porém, é o lançamento de “Estudos sobre a Histeria”, em parceria com o fisiologista Josef Breuer - obra considerada a certidão de nascimento da psicanálise. O livro afirma que sintomas histéricos, como paralisia de uma perna, cegueira temporária, repulsa a comida, etc; seriam representações simbólicas de memórias traumáticas, muitas vezes de natureza sexual. Revela ainda o caso de Anna O. - jovem de 21 anos, paciente de Breuer. Seu tratamento entra para a história por ter sido a primeira aplicação do método de terapia pela fala: sintomas são aliviados ou desaparecem quando a paciente revela recordações dolorosas.
1896. No artigo “Hereditariedade e a Etiologia das Neuroses”, Freud inventa o termo, “psicanálise”, para a terapia pela fala - referindo-se a ela como um novo método de exploração do inconsciente.
1897. Após a morte de seu pai, Freud decide analisar a si próprio como forma de lidar com o luto. No processo, busca significado para suas emoções e comportamentos nas experiências de infância. E desenvolve ideias para um livro que o transformará em um dos grandes pensadores de todos os tempos.
1899. “A Interpretação dos Sonhos” é publicado em dezembro - mas Freud coloca 1900 como data do livro, para marcar seu lançamento como um dos grandes eventos do início do novo séculos. Na obra, Freud apresenta uma teoria estruturada e inovadora sobre uma parte até então desconhecida da mente, o inconsciente, que ele aponta como o verdadeiro responsável pelos nossos comportamentos, angústias e personalidade. O livro ainda apresenta a sua “primeira tópica”: a divisão da mente em consciente, pré-consciente e inconsciente.
1901. No livro “A Psicopatologia da Vida Cotidiana”, Freud apresenta sua teoria dos atos falhos - que, assim como os sonhos e os distúrbios mentais, seriam janelas de acesso ao inconsciente.
1905. Lança sua obra mais polêmica, que lhe rende fama de tarado. “Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade” choca o mundo ao sugerir que crianças também têm suas próprias brincadeiras e necessidades sexuais. E apresenta em detalhes uma de suas teorias mais influentes: o complexo de Édipo.
1906. Conhece Carl Gusta Jung, psicoterapeuta e fundador da psicologia analítica, que passa a tratar como herdeiro intelectual. Freud enxerga no amigo um aliado importante para a causa da psicanálise, até então considerada como “coisa de um gueto judeu vienense”. Jung é suíço e não judeu - o perfil ideal para desvincular a invenção de Freud da imagem reducionista. Por um tempo, de fato, Jung se torna expoente do circulo freudiano - e é claramente influenciado pelo trabalho do mestre. Mas os dois acabam rompendo por diferenças conceituais, uma separação dolorida para Freud.
1908. O Primeiro Congresso Internacional de Psicanálise, em Salzburgo, na Áustria, reúne 42 “psicólogos freudianos” de sete países. É a disseminação das teorias de Freud, que ganha um novo capítulo no ano seguinte, quando ele faz palestras nos Estados Unidos, onde a psicanálise virará uma febre. Apesar do sucesso no Novo Mundo, Freud reprova o consumismo desenfreado americano e teme que a psicanálise seja absorvida por esse estilo de vida, com suas simplificações e distorções: “A América é o mais gigantesco experimento que o mundo já viu, mas temo que não seja destinado ao sucesso. A América é colossal, um erro colossal”.
1912. Publica “Totem e Tabu”, no qual afirma que a cultura e a sociedade têm raízes na proibição do incesto.
1920. Lança “Além do Princípio do Prazer”, que introduz o conceito de pulsão de morte, um impulso autodestrutivo e agressivo que está na base da natureza humana.
1923. Freud apresenta sua “segunda tópica”: ele agora estrutura o aparelho psíquico em id, ego e superego - instâncias em permanente conflito.
1927. Em “O Futuro de um Ilusão”, deixa explícito seu ateísmo ao tratar das origens e da função da religião.
1930. Um ano após o colapso da Bolsa de Valores em Nova York, publica seu livro mais lido e pessimista também: “O Mal-Estar na Civilização”. Na obra, Freud defende que os desejos humanos e as exigências da sociedade são duas coisas conflitantes - e inconciliáveis. Mas também que, embora a civilização seja uma fonte inesgotável de decepções, já que nos obriga a renunciar aos nossos impulsos, é o único remédio contra o pendor à destruição mútua.
1932. Diálogo de gênios: a convite das Nações Unidas, Albert Einstein procura Freud para uma troca de cartas a favor da paz e do desarmamento. a resposta de Freud, porém, não é lá muito otimista. Einstein gentilmente pede mais esclarecimentos, e Freud, responde com um manifesto político: “Por que a Guerra?”
1933. Em Berlin, os nazistas, a mando de Goebbels, queimam livros de Freud em praça pública - o Reich vê a psicanálise como “ciência judaica”. Freud não se abala com a notícia, e responde com ironia: “Quanto progresso! Na Idade Média, teriam me queimado; agora limitam-se a queimar meus livros”. Alertado pelos amigos de que Viena não é mais segura para judeus famosos como ele, Freud ainda não leva o nazismo a sério - e se recusa a deixar sua cidade. Para ele, Hitler e seus vândalos são só antissemitismo que aflora de tempos em tempos, testando a resiliência dos judeus. Mas se engana.
1938. Hitler toma a Áustria e assume o poder em Viena. A ficha finalmente cai, e Freud se vê obrigado a deixar a cidade para não ser outra vítima da violência nazista - e de parte da população vienense não judia, que se sente autorizada a massacrar judeus. Octogenário, já muito doente, Freud concorda em emigrar para a Inglaterra antes que o levem a um campo de concentração. Fixa residência em Londres, onde continua a atender pacientes e trabalha nas suas obras derradeiras: “Moisés e o Monoteísmo” e “Compêndio da Psicanálise”.
1939. A Segunda Guerra Mundial começa, e os primeiros alertas de ataques aéreos soam sobre Londres quando Freud pede a seus médico particular que cumpra uma promessa. O avanço de um câncer na boca torna-se insuportável, e o paciente quer a sedação que o livrará da dor - para sempre. Três superdoses depois, na madrugada de 23 de setembro de 1939, a morfina tira a vida do pai da psicanálise. Um fim sereno após 16 anos resistindo ao câncer, período no qual Freud nunca abdica de um de seus maiores prazeres - e o provável motivo de sua doença fatal: 20 charutos por dia.